O que muda no cabelo na menopausa?

Mulher com camisa branca a pentear cabelo castanho longo com uma escova cor de rosa

Hoje falamos de alterações do cabelo na menopausa. Queixas como cabelo mais fino e sensação de ter menos cabelo são muito comuns e podem ter um impacto importante na autoestima. Afinal, ninguém gosta de sentir que está a perder cabelo ou que todos os dias são bad hair days.

Este é um tema que me interessa particularmente, porque tenho alopecia androgenética diagnosticada e tratada há 7 anos. A razão que me levou a procurar ajuda, na altura, foi precisamente a perda de densidade: sentir o cabelo com menos corpo, o rabo de cavalo cada vez mais fino e a risca do cabelo muito mais larga, algo especialmente evidente nas fotografias.

Já conhecia o Dr. Rui Oliveira Soares dos meus tempos na farmácia hospitalar, mas foi também através do projeto Beautyst.pt, da minha amiga Joana Álvares, que comecei a juntar as peças deste puzzle e a perceber melhor a importância de procurar ajuda especializada.

A Joana tem feito um trabalho notável na consciencialização para as doenças do cabelo (e não só) e o seu site reúne um enorme acervo de conteúdos muito úteis sobre saúde capilar que recomendo vivamente.

Foi neste contexto que recorri ao Dr. Rui Oliveira Soares, do Centro de Dermatologia de Lisboa, que me acompanha desde então.

Para perceber melhor o que pode acontecer ao cabelo na menopausa, quando devemos procurar ajuda e que soluções existem, convidei o Dr. Rui Oliveira Soares para uma sessão rápida de perguntas e respostas.

O Dr. Rui Oliveira Soares é médico especialista em dermatologia e uma das maiores referências nacionais em Tricologia, o ramo da dermatologia que se dedica ao estudo das doenças que podem afetar o cabelo.

De que forma pode a menopausa afetar o cabelo e quais são as queixas mais comuns?

Dr. Rui Oliveira Soares: Durante a menopausa, os níveis de estrogénios caem a pique. Isso permite à testosterona (uma hormona masculina) não ter competição para se ligar aos recetores hormonais dos folículos. A consequência, no caso de existir tendência genética para calvície comum (alopecia androgenética), é um afinamento do fio e uma redução progressiva da densidade na parte de cima da cabeça.

Por outro lado, existe uma doença cicatricial do couro cabeludo associada a este período. Chama-se alopecia fibrosante frontal.

Como distinguir alterações expectáveis de sinais de alerta?

Dr. Rui Oliveira Soares: O principal sinal de alerta de alopecia androgenética é a perda progressiva de densidade.

Quando a menopausa conduz a mais queda de cabelo apenas temporária, habitualmente a redução de densidade ao longo do tempo não será significativa.

Na alopecia fibrosante frontal, deve alarmar a perda de sobrancelhas ou o recuo da linha frontotemporal de implantação do cabelo (aumento do tamanho da testa).

Quando procurar ajuda e a que profissionais recorrer?

Dr. Rui Oliveira Soares: Deve recorrer-se preferencialmente a um dermatologista ou, quando não for possível, ao médico de família, se a queda for muito maior do que a habitual para essa pessoa nessa altura do ano, se houver áreas novas sem cabelo ou se houver uma clara redução de densidade.

O que acontece numa consulta de cabelo e como é feita a avaliação?

Dr. Rui Oliveira Soares:  A consulta tem três partes.

Anamnese: percebem-se as queixas e o enquadramento de saúde pessoal e familiar.

Observação: engloba a observação a olho nu do cabelo e do couro cabeludo e um exame complementar — tricoscopia — que permite ver alterações não detetáveis a olho nu. Esta técnica evita termos de fazer biópsias frequentes ao couro cabeludo, como acontecia antes de termos tricoscopia. Por vezes, poderão ser pedidos exames complementares.

Conclusão: propõe-se um diagnóstico e um tratamento para o problema.

Que soluções existem para as queixas mais comuns?

Dr. Rui Oliveira Soares: Para a simples queda de cabelo sem outras alterações, muitas vezes tranquilizar e usar um suplemento é suficiente. 

Na alopecia androgenética, usamos sobretudo minoxidil, antiandrógenos e transplante de cabelo. 

Na alopecia fibrosante frontal, necessitamos de medicamentos que parem a evolução da doença, como corticosteroides ou outros.  Em casos selecionados, o transplante também pode ajudar.

Qual a importância do estilo de vida na saúde do cabelo na menopausa?

Dr. Rui Oliveira Soares: Ajuda uma alimentação variada, não ter excesso de peso, fazer exercício, dormir bem, mas, sobretudo, não fumar.

Faz sentido tomar suplementos destinados à saúde do cabelo? Que cuidados se devem ter na escolha de um suplemento?

Dr. Rui Oliveira Soares: Os suplementos fazem sentido se soubermos existir uma determinada carência (como por exemplo ferro), em alturas em que a queda de cabelo é mais marcada (por exemplo, no pós-parto, na queda sazonal, etc.), ou também pelo seu efeito placebo.

O cuidado principal é que seja em dose suficiente para suplementar o princípio que falta, e o ideal é ser aconselhado pelo médico.

Na maioria das pessoas saudáveis, não está provada a utilidade dos suplementos.

Quais são os mitos mais frequentes que encontra em consulta?

Dr. Rui Oliveira Soares: O primeiro é as pessoas associarem a queda de cabelo à perda definitiva do cabelo. Regra geral, a queda, por si só, não conduz a menos cabelo no futuro. É apenas uma renovação.

Muita gente associa mais ou menos queda à frequência das lavagens. A queda depende apenas de fenómenos fisiológicos e patológicos, mas nunca tem relação com a frequência de lavagem.

Os capacetes, bonés, etc., não fazem perder cabelo, ao contrário da crença generalizada.

Cortar as pontas não faz o cabelo ganhar força. Quanto mais distal, mais deteriorada está a haste e, ao cortar a parte mais deteriorada, durante umas semanas ganha em aspeto, pelo que há pessoas que acreditam que cortar pode ajudar. Não ajuda, exceto no aspeto, já que o cabelo em si é uma estrutura morta. O que está vivo são as células muito dentro da pele que lhe dão origem: o folículo.

Uma mensagem final para as mulheres que sentem alterações no cabelo na menopausa é que consultem um médico.

Dr. Rui Oliveira Soares, médico dermatologista

É mesmo importante sabermos reconhecer os sinais de alerta e não perder demasiado tempo (nem dinheiro), com champôs, ampolas e suplementos que podem não resolver o problema.

Quando há queda persistente, perda progressiva de densidade, zonas sem cabelo, recuo da linha de implantação ou perda de sobrancelhas, o melhor é procurar ajuda médica, idealmente junto de um dermatologista.

Quanto mais cedo percebermos o que está a acontecer, maior a probabilidade de chegar ao tratamento certo.

Sentem mudanças no vosso cabelo com a menopausa?

Até breve!

Rita

Fotografia: Márcia Soares

Disclaimer

Os conteúdos deste site são de caráter informativo e educacional e não substituem o aconselhamento médico individualizado. As informações sobre sintomas, tratamentos, alimentação e exercício físico são generalistas e podem não ser adequadas para todas as mulheres. Para um diagnóstico correto e um tratamento adequado, consulta sempre um médico antes de iniciares qualquer tratamento, incluindo medicamentos, suplementos alimentares, planos de exercício físico, procedimentos médico-estéticos ou outros programas relacionados com a tua saúde.

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