8 mitos sobre a menopausa que continuo a ouvir (e que precisamos de esclarecer)

Mulher à janela a beber um chá e a pensar em mitos sobre menpopausa.

O projeto Sem Pausa está quase a fazer um ano!

Ao longo deste tempo, li, ouvi e recebi dezenas de mensagens que me confirmaram aquilo que, no fundo, eu já sabia. Continuam a existir muitos mitos sobre a menopausa profundamente enraizados. Alguns parecem inofensivos, mas, na realidade, podem atrasar decisões importantes, gerar frustração e causar sofrimento desnecessário.

Hoje partilho os 8 mitos sobre a menopausa que continuo a ver e a ouvir com mais frequência, tanto de mulheres como de profissionais de saúde.

Mas antes de começarmos, vale a pena esclarecer quais são as fases da menopausa. Ainda existe muita confusão entre estes termos e acredito que isso contribui para que muitos dos mitos de que vamos falar continuem a persistir.

PRÉ-MENOPAUSA: é o período que inclui toda a idade fértil, desde a primeira menstruação até à menopausa. Nesse sentido, mesmo aos 20 anos estamos em pré-menopausa. Contudo, em linguagem comum, o termo é frequentemente usado para descrever apenas os anos que antecedem diretamente a menopausa.

PERIMENOPAUSA: é o período de transição para a menopausa que começa com alterações do ciclo menstrual e com os primeiros sintomas associados às flutuações hormonais, e termina 12 meses após a última menstruação. É durante esta fase que tendem a surgir os sintomas mais conhecidos da menopausa. Pode durar vários anos, por vezes até uma década. Por isso, quando dizemos “estou a passar pela menopausa” ou “a minha menopausa está a ser difícil”, na maioria das vezes estamos, na realidade, a referir-nos à perimenopausa.

MENOPAUSA: é a última menstruação e só pode ser confirmada depois de passarem 12 meses seguidos sem menstruar. Ou seja, apenas um ano depois conseguimos olhar para trás e perceber qual foi o dia da menopausa. A menopausa é um momento no tempo — não é um período que dura anos.

No entanto, esta definição não se aplica a todas as mulheres. Quem toma a pílula, utiliza um DIU hormonal, não tem útero ou está noutra situação em que não há menstruação pode não conseguir identificar esse momento com base na ausência da menstruação. Nesses casos, pode ser mais difícil saber quando ocorreu a menopausa e é preciso avaliar a situação de forma individual.

PÓS-MENOPAUSA: é a fase que se inicia após o último período menstrual e se prolonga até ao final da vida. Em linguagem corrente dizemos que alguém “está na menopausa” para nos referirmos a esta etapa, mas o termo tecnicamente mais correto é pós-menopausa.

Mas vamos aos mitos.

1. “Tenho sintomas de menopausa, mas as análises estão normais”

Esta é a mensagem que mais recebi ao longo deste ano, por isso vale a pena falarmos sobre ela.

Na maioria das mulheres com mais de 45 anos, as análises hormonais não são muito úteis para diagnosticar a perimenopausa e não são recomendadas de forma rotineira pelas principais sociedades médicas.

Porquê? Durante a transição para a menopausa, os níveis hormonais flutuam de forma irregular, com oscilações que podem ser bastante abruptas. Uma análise feita num único dia é apenas uma fotografia daquele momento. Se vier “normal”, significa apenas que, naquele instante, os valores estavam dentro do intervalo de referência; não quer dizer que não existam variações significativas ao longo do ciclo ou do mês.

É perfeitamente possível ovular mesmo numa fase avançada da transição para a menopausa. Se as análises forem feitas precisamente nesse momento, os valores hormonais podem parecer completamente normais, criando a falsa impressão de que ainda faltam muitos anos para a última menstruação.

Por isso, é possível ter análises “normais” e sintomas claros de perimenopausa. O diagnóstico é sobretudo baseado nas queixas da mulher, que nem sempre sãos os afrontamentos (esse é outro mito, mas já lá vamos). Muitas vezes, os primeiros sinais são alterações subtis no padrão menstrual, insónia, mudanças de humor, irritabilidade, ansiedade, cansaço, dificuldades de concentração e aquela sensação persistente de que “algo não está bem”.

A exceção são as mulheres com menos de 45 anos, especialmente com menos de 40, que apresentam alterações menstruais e/ou sintomas evidentes. Nestes casos, é importante fazer uma avaliação cuidada, porque podemos estar perante uma menopausa precoce, insuficiência ovárica prematura ou outra situação que exige uma abordagem diferente.

2. “Ainda é muito nova para ter sintomas de perimenopausa”

Este é um dos mitos sobre a menopausa mais enraizados, inclusive entre profissionais de saúde.

A menopausa natural ocorre, em média, entre os 45 e os 54 anos. Na Europa, a idade média situa-se entre os 50 e os 51 anos. Mas isso não significa que os sintomas só surjam nessa altura. A perimenopausa pode começar vários anos antes — por vezes 5, 8 ou até 10 anos. Por isso, é perfeitamente possível que uma mulher com 40 anos, ou até um pouco mais nova, já tenha sintomas. Eu própria comecei aos 41.

Estudos populacionais mostram que o início desta transição ocorre, em média, entre os 45 e os 47 anos, mas pode manifestar-se aos 40 ou mesmo antes. Fatores genéticos, étnicos e ambientais ajudam a explicar esta variação.

Por isso, “é muito nova” não é um grande argumento.

3. “Não tenho afrontamentos, não pode ser menopausa”

Os afrontamentos são um dos sintomas mais conhecidos da menopausa e afetam até 80% das mulheres. Mas a ideia de que a menopausa se resume apenas a afrontamentos e suores noturnos é um mito.

A menopausa pode manifestar-se de muitas outras formas. Para além dos afrontamentos e suores noturnos, são comuns os distúrbios do sono, alterações do humor, ansiedade, cansaço persistente, dores articulares, diminuição da libido e dificuldades de concentração ou memória. Podem existir também queixas geniturinárias, como secura vaginal, dor nas relações sexuais, urgência urinária ou infeções urinárias recorrentes.

Muitas mulheres notam ainda alterações na composição corporal, como aumento da gordura abdominal, perda de massa muscular e mais flacidez mesmo mantendo hábitos semelhantes. 

Tudo isto acontece porque os estrogénios têm ação em praticamente todo o corpo — no cérebro, nos ossos, nas articulações, na vagina, na bexiga, na pele, no metabolismo. Durante a perimenopausa, os níveis hormonais flutuam bastante; após a menopausa, mantêm-se baixos, com impacto em vários sistemas do corpo.

O problema é que muitas mulheres (e muitos profissionais de saúde) não reconhecem estes sintomas como sendo a transição para a menopausa. Atribuem-nos ao stress, à idade ou ao ritmo de vida, e acabam por não procurar ajuda ou achar que é normal. Ou então, procuram ajuda e ouvem que se não têm afrontamentos, então não pode ser menopausa (ainda acontece).

4. “A menopausa é natural, tenho de aguentar”

É verdade que a menopausa é um processo fisiológico normal e natural, que resulta da perda da função ovárica e da diminuição dos estrogénios. Mas ser natural não significa que os sintomas tenham de ser suportados ou que tenhamos de ser mártires.

Sintomas como afrontamentos, suores noturnos, insónia, alterações de humor, dificuldades cognitivas, secura vaginal, dor nas relações sexuais e urgência urinária são muito frequentes e podem persistir durante anos. Em muitas mulheres, são absolutamente disruptivos e, em alguns casos, comprometem não só a qualidade de vida, mas também a saúde a longo prazo.

Por exemplo, mulheres com afrontamentos frequentes ou intensos têm maior probabilidade de desenvolver doença cardiovascular, como enfarte ou AVC. Os suores noturnos associam-se a pior qualidade de sono, alterações de memória e perda de performance no trabalho. A síndrome geniturinária da menopausa não tratada aumenta o risco de infeções urinárias de repetição. 

Mas não tem de ser assim. Existem tratamentos e intervenções (hormonais e não hormonais) que podem aliviar sintomas e reduzir complicações futuras. A decisão deve ser individualizada, informada e partilhada.

Sim, a menopausa é uma etapa natural da vida, mas ser mártir não é uma fatalidade biológica.

5. “A terapêutica hormonal é perigosa”

Este dá pano para mangas, mas vamos lá. Durante décadas, a terapêutica hormonal da menopausa foi prescrita de forma quase rotineira para aliviar os sintomas da menopausa. Essa prática mudou radicalmente em 2002, com a divulgação de um grande estudo chamado Women’s Health Initiative (WHI), que associou a terapêutica hormonal combinada a um aumento do risco de cancro da mama e de problemas cardiovasculares. A forma como estes resultados foram divulgados causou um grande alarme, levou a uma redução drástica do uso da terapêutica hormonal e criou um medo que ainda hoje persiste.

Esse medo deve-se, em grande parte, à forma como a informação foi comunicada. Falaram-se sobretudo em percentagens de aumento de risco, sem explicar que, na maioria das mulheres, especialmente nas mais jovens, o risco real era bastante baixo. Além disso, muitas das mulheres do estudo já estavam há muitos anos em pós-menopausa, o que faz com que esses resultados não se apliquem da mesma forma a todas. Com o tempo, a ciência ajudou a clarificar melhor estes dados.

Reanálises do WHI e novos estudos permitiram clarificar melhor riscos e benefícios. Hoje sabemos que o momento em que a terapêutica é iniciada é determinante. Quando a terapêutica hormonal é iniciada antes dos 60 anos ou até 10 anos após a menopausa, o perfil benefício-risco é claramente mais favorável.

Atualmente, as principais sociedades médicas internacionais reconhecem que, na maioria das mulheres sintomáticas dentro desta janela temporal, os benefícios da terapêutica hormonal superam amplamente os riscos. 

Outro aspecto importante é que nem todas as terapêuticas hormonais são iguais. Os riscos variam consoante o tipo de hormonas utilizadas, a dose, a via de administração e a duração do tratamento.

Claro que nada é risco zero e a THM não é exceção. Existem mulheres que têm contraindicações e que efetivamente não podem fazer, por isso, a decisão de iniciar (ou não) terapêutica hormonal deve ser sempre individualizada, baseada numa avaliação cuidada da história clínica, dos fatores de risco, das queixas e das preferenciais de cada mulher. A relação risco-benefício não é igual para todas. E é precisamente por isso que a decisão deve ser informada, partilhada e acompanhada por um médico que conheça bem a mulher que tem à sua frente e a evidência científica mais atual.

Para quem quiser aprofundar este tema, recomendo a leitura dos artigos Terapêutica hormonal: entre os mitos e a medicina baseada na evidência e Perguntas e respostas sobre a terapêutica hormonal da menopausa com a Dra. Rita Maia, em colaboração com a Dra. Rita Maia, médica especialista em Medicina Geral e Familiar, com formação avançada em menopausa pela British Menopause Society.

6. “Só posso tratar os sintomas depois dos 50 anos”

Esta é outra ideia que ainda persiste, sem razão. Não é preciso “chegar aos 50” nem esperar 12 meses sem menstruação para iniciar tratamento dos sintomas incómodos. Não é isso que as sociedades médicas recomendam.

Se uma mulher em perimenopausa, mesmo no início dos 40, tem sintomas que afetam claramente a sua qualidade de vida, esses sintomas merecem ser avaliados e, quando indicado, tratados.

Existem várias opções de tratamento que podem incluir a terapêutica hormonal, mas também alternativas como a pílula combinada (incluindo formulações mais recentes com estrogénios mais semelhantes aos produzidos pelo nosso corpo) ou o dispositivo intrauterino com levonorgestrel, que pode ser utilizado em combinação com estrogénios quando indicado, entre outras. 

A decisão de iniciar um tratamento não se baseia apenas na idade ou na ausência de menstruação durante um ano. Baseia-se na presença de sintomas compatíveis com esta fase que afetam a qualidade de vida, numa avaliação individualizada do perfil benefício-risco e, muito importante, nas preferências e prioridades de cada mulher. São estas as recomedações das sociedades médicas.

7. “Prefiro fazer suplementos naturais porque são mais seguros”

É natural procurar alternativas, mas é importante fazê-lo com espírito crítico e informação fidedigna. Nem tudo o que é “natural” é necessariamente seguro ou eficaz.

Ao contrário dos medicamentos, os suplementos alimentares não estão sujeitos ao mesmo nível de controlo e de regulação (nem pouco mais ou menos). Não existe a mesma exigência de estudos de eficácia e segurança, nem de padronização da dose, da pureza ou da composição. Na prática, isso significa que dois frascos do mesmo suplemento podem ter quantidades muito diferentes do ingrediente ativo e nem sempre aquilo que está no rótulo corresponde exatamente ao que está na embalagem.

Há ainda outro ponto pouco falado que é o facto de alguns suplementos podem estar contaminados com metais pesados, fungos, ou até adulterados com medicamentos, incluindo substâncias que deveriam ser usadas apenas sob prescrição médica.

Os riscos não são teóricos e estão mesmo descritos casos de lesões hepáticas, reações alérgicas e outros efeitos adversos associados a suplementos “naturais”. Além disso, as interações com medicamentos são muitas vezes subestimadas. Certos compostos naturais podem aumentar ou diminuir o efeito de alguns medicamentos, aumentando o risco de efeitos adversos ou de perda de eficácia.

Um problema adicional é que muitos destes efeitos não são comunicados nem registados, o que dificulta perceber o verdadeiro risco e identificar qual o ingrediente responsável quando algo corre mal.

Claro que isto não quer dizer que todos os suplementos sejam inúteis ou perigosos. Alguns suplementos podem efetivamente ter um papel importante em situações específicas e sintomas ligeiros, desde que bem escolhidos e bem enquadrados. Mas devem ser avaliados com o mesmo cuidado que qualquer outra opção terapêutica.

Se optarem por usar suplementos, é importante ter alguns cuidados: 

  • falar sempre com o médico ou farmacêutico antes de iniciar, sobretudo se existirem doenças ou toma de medicação;
  • não substituir tratamentos prescritos por suplementos sem orientação;
  • verificar cuidadosamente a composição, sobretudo em caso de alergias ou risco de interações;
  • escolher marcas de confiança, preferencialmente adquiridas em farmácia ou parafarmácia;
  • evitar compras online de origem duvidosa;
  • estar atenta a efeitos adversos e suspender o uso se surgirem reações.

8. “A menopausa é o princípio do fim”

Apesar dos sintomas físicos e psicológicos que podem surgir, a menopausa não tem de ser vivida como um fim. Pode mesmo representar uma fase de libertação e crescimento pessoal. É verdade que marca o fim da nossa vida reprodutiva, mas pode também marcar o início de uma etapa com mais liberdade, mais maturidade emocional e maior clareza sobre o que queremos (ou não).

Eu sempre preferi ver o copo meio cheio e não trocaria os meus quase 45 pelos 30, muito menos pelos 20. A idade e a menopausa trazem desafios, claro. Mas a mim trouxeram também mais confiança, uma relação mais serena e até de maior respeito com o meu corpo, e uma capacidade reforçada de expressar as minhas opiniões, sentimentos e limites.

Com décadas de vida ativa pela frente, a nível pessoal e profissional, vejo esta fase como um tempo de consolidação, experiência acumulada, competências e até alguma influência junto das gerações mais novas.

A forma como vemos a menopausa também importa e existem estudos que mostram que mulheres que encaram esta fase de forma mais positiva tendem a relatar menos sintomas, maior bem-estar e melhor qualidade de vida. Em muitos aspetos, temos margem de ação e temos escolha.

A menopausa está longe de ser um desaparecimento. Pode ser uma fase de afirmação.

Isto não significa ignorar os sintomas e as dificuldades. Quando existem e interferem com a qualidade de vida, devem ser reconhecidos e tratados.

Ao longo deste artigo desmontámos 8 mitos sobre a menopausa que continuam a circular. Alguns repetidos por hábito, outros simplesmente por falta de atualização.

A menopausa não é um mistério, nem tem de ser um castigo, nem uma prova de resistência. É uma fase da nossa vida e, como qualquer outra, merece informação rigorosa, acompanhamento adequado e boas decisões.

A informação não elimina todos os sintomas, mas reduz o medo desnecessário e dá-nos poder de decisão.

Já tinham ouvido algum destes mitos?

Até breve!
Rita

Fotografia: Márcia Soares

Referências

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Disclaimer

Os conteúdos deste site são de caráter informativo e educacional e não substituem o aconselhamento médico individualizado. As informações sobre sintomas, tratamentos, alimentação e exercício físico são generalistas e podem não ser adequadas para todas as mulheres. Para um diagnóstico correto e um tratamento adequado, consulta sempre um médico antes de iniciares qualquer tratamento, incluindo medicamentos, suplementos alimentares, planos de exercício físico, procedimentos médico-estéticos ou outros programas relacionados com a tua saúde.

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