Comichão, ardor ou dor na vulva e na vagina? Secura vaginal persistente? Dor durante as relações sexuais? Vontade frequente de urinar, ardor ao urinar ou infeções urinárias recorrentes?
Estes sintomas são frequentes na menopausa e estima-se que afetem até 84% das mulheres.
O termo médico é Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGM) e define-se como um conjunto de sintomas vulvares, vaginais, sexuais e urinários associados à diminuição dos níveis de estrogénios que acontece na menopausa. Apesar de ser muito comum, é também muito subdiagnosticada e subtratada.
Estes sintomas, embora frequentes na menopausa, não afetam todas as mulheres da mesma forma. Podem ser ligeiros em algumas e mais intensos, com maior impacto na qualidade de vida, noutras.
Mas antes de avançarmos, vamos distinguir a vulva e a vagina.
A vulva e a vagina são partes diferentes da anatomia feminina, embora os termos sejam muitas vezes usados como se fossem a mesma coisa.
A vulva corresponde à parte externa dos genitais femininos, ou seja, aquilo que é visível. Inclui o monte púbico (a zona arredondada acima da região genital), os grandes lábios, os pequenos lábios, o clitóris, a abertura da uretra (por onde sai a urina) e a entrada da vagina.
A vagina, por sua vez, é uma estrutura interna — um canal muscular e elástico que liga a vulva ao colo do útero, por onde ocorre o parto vaginal e que está envolvido nas relações sexuais penetrativas. Situa-se no interior do corpo e tem, em média, cerca de 7 a 10 centímetros de comprimento, embora seja altamente distensível.
Resumindo, a vulva é tudo o que se vê por fora; a vagina é o canal interno que não se vê. Esta distinção é importante, porque os sintomas, as causas e os tratamentos podem ser diferentes consoante a estrutura envolvida.
Feita esta distinção, vamos então perceber que sintomas são estes e por que razão acontecem.
Quais são os principais sintomas da Síndrome Geniturinária da Menopausa?
Na vulva
A vulva possui inúmeros recetores para os estrogénios e os androgénios. À medida que os níveis de ambas as hormonas diminuem, podem ocorrer alterações estruturais e funcionais nos tecidos vulvares.
Com a diminuição dos estrogénios e a perda progressiva de colagénio associada à idade (o colagénio é uma proteína fundamental para a firmeza, elasticidade e resistência dos tecidos), a pele da vulva torna-se mais fina, mais seca e mais frágil.
Isto aumenta a probabilidade de irritação, comichão, ardor e pequenas lesões, que podem surgir mesmo em situações do dia a dia, como caminhar, sentar, praticar exercício físico ou usar roupa mais justa. Em algumas mulheres, os pequenos lábios e o clitóris podem parecer ligeiramente mais pequenos.
Na vagina
Os estrogénios têm um papel fundamental na integridade dos tecidos da vagina. Com a sua diminuição, a parede vaginal torna-se mais fina e menos flexível, perdendo as suas pregas naturais.
Com menos estrogénios, diminui também o fluxo de sangue para a vagina. Os tecidos recebem menos oxigénio e nutrientes, o que contribui para a atrofia, para uma menor capacidade de regeneração e para a sensação persistente de secura.
A lubrificação natural também diminui. Como resultado, podem surgir sintomas como secura vaginal, ardor, irritação, dor durante as relações sexuais e, por vezes, pequenas perdas de sangue após o contacto sexual, resultantes de pequenos traumatismos.
Durante os anos férteis, as células da vagina produzem glicogénio, uma substância que serve de “alimento” às bactérias benéficas da vagina. Estas bactérias ajudam a manter o ambiente vaginal equilibrado e protegido contra infeções.
Com a menopausa, a diminuição dos estrogénios leva a uma menor produção de glicogénio. Como consequência, o ambiente vaginal torna-se menos ácido, o que facilita o crescimento de bactérias menos protetoras, aumentando assim a vulnerabilidade a infeções.
No trato urinário inferior
A uretra (o canal por onde sai a urina) e a bexiga também são afetadas. A diminuição dos níveis de estrogénios faz com que os tecidos se tornem mais finos, mais frágeis e com menor irrigação sanguínea. Isto torna a uretra mais sensível a irritações, pequenas lesões e infeções, podendo causar ardor, dor ou desconforto ao urinar.
São também frequentes sintomas como vontade súbita e urgente de urinar, necessidade de urinar várias vezes ao longo do dia e acordar durante a noite para urinar.

Estas queixas não melhoram sozinhas
Ao contrário dos afrontamentos, que acabam por aliviar com o tempo mesmo sem tratamento, os sintomas geniturinários tendem a agravar-se se nada for feito. Não desaparecem espontaneamente e ignorá-los significa, muitas vezes, aceitar uma perda gradual de qualidade de vida.
Estamos a falar de sintomas que podem limitar de forma significativa atividades simples do dia a dia, como andar, sentar ou praticar exercício físico, e afetar a vida sexual, a intimidade e o bem-estar emocional.
Apesar disso, ainda persiste a ideia de que tudo isto é “normal da idade” ou uma consequência inevitável do envelhecimento que temos de aceitar e que pouco há a fazer. Esta normalização do desconforto faz com que muitas mulheres não procurem ajuda e, muitas vezes, contribui também para uma abordagem clínica pouco proativa. Ser comum não significa que tenha de ser tolerado, sobretudo quando existem opções de tratamento eficazes. Vamos falar sobre isso mais à frente.
Vergonha de falar sobre o assunto
Embora estes sintomas sejam referidos por até 84% das mulheres (dependendo dos estudos), apenas cerca de 7% recebem tratamento adequado, segundo um estudo europeu. Muitas mulheres não mencionam estas queixas, sentem vergonha ou optam por não abordar o tema, por considerarem demasiado íntimo ou inevitável.
As sociedades médicas recomendam que os profissionais de saúde questionem ativamente sobre estes sintomas e criem um ambiente que facilite este tipo de conversa. Na prática, sabemos que muitas consultas não oferecem tempo nem espaço suficientes para falar abertamente sobre estes temas.
Mas cabe-nos também a nós trazer estas queixas para a consulta, de forma clara e sem constrangimentos. Estes sintomas são crónicos e progressivos e, regra geral, quanto mais cedo se inicia o tratamento, melhores são os resultados.
Existem várias opções de tratamento
Existem opções eficazes e seguras, quando bem indicadas, e a escolha deve ser sempre individualizada, sendo discutida com o médico assistente à luz dos sintomas, das preferências e da história clínica.
Medidas não hormonais de uso local
- HIDRATANTES VULVARES E VAGINAIS: ajudam melhorar a hidratação e o conforto dos tecidos. Devem ser usados regularmente (várias vezes por semana). Podem ser utilizados em simultâneo com os estrogénios locais.
- LUBRIFICANTES: utilizados sobretudo durante as relações sexuais, para reduzir o desconforto. Também podem ser usados em conjunto com os estrogénios locais.
Terapêuticas hormonais de uso local
- ESTROGÉNIOS VAGINAIS EM BAIXA DOSE: são aplicados diretamente na vulva e na vagina sob a forma de creme, gel, comprimidos ou cápsulas vaginais, e são considerados o tratamento padrão para a maioria das mulheres com sintomas geniturinários. Importa esclarecer que estes estrogénios de aplicação local não são o mesmo que a terapêutica hormonal sistémica. Têm uma absorção mínima para a corrente sanguínea e um perfil de segurança distinto. São atualmente considerados seguros para a maioria das mulheres e não partilham as mesmas contraindicações, nem os mesmos riscos da terapêutica hormonal sistémica. Podem ser iniciados em qualquer altura, mesmo nas mulheres mais velhas, e utilizados a longo prazo. De acordo com as orientações mais recentes da American Urological Association, os estrogénios vaginais em baixa dose podem até ser considerados uma opção em mulheres com história de cancro da mama, desde que a decisão seja individualizada e discutida com a equipa médica assistente.
- PRASTERONA (DHEA): trata-se de uma substância idêntica à hormona produzida naturalmente pelas glândulas suprarrenais, que é convertida localmente em estrogénios e androgénios. É administrada sob a forma de óvulo vaginal.
Outras opções
- OSPEMIFENO: é um modulador seletivo dos recetores de estrogénio. Isto significa que não é um estrogénio, mas atua ligando-se aos seus recetores, com efeitos diferentes consoante o tecido. Tem efeito estrogénico a nível da vagina e efeito neutro ou antagonista noutros tecidos, como a mama e o endométrio. É tomado por via oral e pode ser uma opção para mulheres que preferem não fazer tratamentos locais.
- FISIOTERAPIA DO PAVIMENTO PÉLVICO
- TRATAMENTOS COM LASER: uma opção que pode ser considerada em mulheres que não podem utilizar terapêuticas hormonais ou que não obtêm benefício suficiente com os tratamentos convencionais. Atuam através da melhoria da vascularização e da remodelação do colagénio dos tecidos vaginais, promovendo maior hidratação e conforto. Trata-se de uma abordagem relativamente recente e, de acordo com as sociedades médicas, ainda é necessária evidência científica mais robusta para confirmar a sua eficácia e segurança a longo prazo. Caso se opte por esta abordagem, é fundamental que seja realizada por um médico treinado e experiente.
Antes de terminar, importa dizer que alguns destes sintomas geniturinários não são exclusivos da menopausa. Podem ocorrer noutras fases da vida, como no pós-parto (especialmente durante a amamentação) ou em mulheres que tomam medicamentos que reduzem os níveis de estrogénios, como o tamoxifeno, inibidores da aromatase ou algumas pílulas combinadas.
Além disso, existem outras condições que podem causar sintomas semelhantes ao síndrome geniturinário da menopausa, como líquen escleroso, psoríase, dermatites de contacto, infeções ou outras patologias ginecológicas, que importa excluir.
Para vos ajudar a falar sobre este tema com o vosso médico assistente, criei uma checklist simples que pode ser útil, sobretudo para quem sente mais dificuldade ou vergonha em abordar estas questões durante a consulta.
Checklist para falar sobre desconforto íntimo com o teu médico
1. Vai preparada (mesmo que seja só mentalmente)
Que sintomas tenho?
- Secura, ardor, irritação, comichão ou dor na vulva e/ou vagina
- Diminuição da lubrificação
- Dor durante as relações sexuais
- Pequenas perdas de sangue após as relações sexuais
- Dor ou ardor ao urinar
- Aumento da frequência urinária
- Vontade súbita e intensa de urinar
- Necessidade de urinar durante a noite
- Incontinência urinária
- Infeções urinárias repetidas
Outras questões importantes
- Há quanto tempo começaram?
- São persistentes ou intermitentes?
- Qual a intensidade (leve, moderada ou grave)?
- Interferem com a vida diária ou sexual?
- Já experimentei algum tratamento ou produto? Funcionou ou não?
Não precisas de termos médicos, mas a precisão na descrição é importante.
2. Usa frases claras e objetivas
Por exemplo:
- “Sinto comichão na vulva e na vagina quase todos os dias.”
- “Tenho desconforto ou dor durante as relações sexuais.”
- “Tenho vontade frequente de urinar, mesmo sem infeção.”
- “Tenho infeções urinárias repetidas desde que entrei na menopausa.”
- “Sinto ardor ao urinar.”
Evita minimizar com frases como “é só um incómodo” se, na prática, te afeta.
3. Pergunta pela ligação à (peri)menopausa
Podes dizer:
- “Estou na perimenopausa/menopausa e gostava de perceber se estes sintomas podem estar relacionados.”
- “Li sobre a Síndrome Geniturinária da Menopausa. Poderá ser o meu caso?”
- “Existem outras condições que possam estar a causar estes sintomas?”
4. Pergunta diretamente sobre opções de tratamento
- “Que opções de tratamento existem?”
- “Quais poderão ser mais adequadas no meu caso e porquê?”
5. Se a resposta for “é normal com a idade”, insiste (com calma)
Podes responder:
- “Compreendo que seja comum, mas não é algo com que eu esteja confortável.”
- “Gostava de melhorar estes sintomas, porque afetam a minha qualidade de vida.”
Podes descarregar a checklist em formato PDF aqui.
Para terminar, estes sintomas são comuns, mas também são tratáveis e não são algo que tenhamos de aceitar como parte inevitável do envelhecimento. A menopausa traz mudanças, sim, mas não deve trazer desconforto permanente nem perda de qualidade de vida. Quando falamos abertamente sobre estes sintomas e conhecemos as opções disponíveis, passamos de um lugar de resignação para um lugar de escolha. Vamos lá deixar a vergonha de lado. Cuidar da saúde íntima faz parte de cuidar da saúde como um todo.
Até breve!
Rita
Fotografia: Márcia Soares